Exposição Nestor de Sousa – 1932-2017
Exposição Nestor de Sousa – 1932-2017
Publicado em 10 Janeiro, 2020

Exposição Nestor de Sousa – 1932-2017

 

Até 19 de janeiro, a Sala de Exposições do Nordeste tem a decorrer a exposição “Nestor de Sousa – 1932-2017”.

 A exposição – aberta ao público de segunda a sexta-feira – resulta de uma parceria entre a Câmara Municipal do Nordeste, o Centro de Humanidades (CHAM) e a Biblioteca, Arquivo e Museu da Universidade dos Açores, tendo sido inaugurada por ocasião do IIIº Encontro de Boas Práticas Museológicas, realizado no Nordeste nos dias 22 e 23 de novembro de 2019, no âmbito da celebração do 30º aniversário de criação do museu de Nordeste (1989-2019).

Esta exposição pretende contribuir para um melhor conhecimento da vida e obra de Nestor de Sousa e abrir portas para a divulgação do enorme acervo bibliográfico e documental por ele reunido ao longo da vida e que foi doado à Universidade dos Açores (UAc), a 29/10/2018, por João da Silva e Alcina César.

O riquíssimo espólio agora detido pela Biblioteca da UAc está a ser inventariado e catalogado, esperando-se que desperte o interesse de estudantes e investigadores para um estudo mais aprofundado do trabalho deste grande homem que marcou de forma inegável a cultura micaelense no último quartel do século XX.

A exposição é composta por dois núcleos que se organizam em torno da vida e obra de Nestor de Sousa: o primeiro é de cariz biográfico, documental e bibliográfico; o segundo reflete a programação inicial do Museu do Nordeste, fundado em 1989.

No primeiro núcleo são abordadas várias vertentes de Nestor de Sousa enquanto cidadão, historiador e museólogo, com destaque para algumas peças reveladoras do seu percurso de vida: desde a certidão de nascimento, cadernos de escola, fotografias, catálogos de exposições, documentos técnicos, opiniões, pareceres e até a tese de mestrado por si elaborada. Em complemento, na sala adjacente, disponibiliza-se um conjunto de documentos em formato digital, bem como o acesso a um catálogo provisório do acervo bibliográfico de Nestor de Sousa, hoje pertencente à UAc.

 

Exposição itinerante em 2020

O segundo núcleo é dedicado ao Museu do Nordeste, criado por Nestor de Sousa, cuja base de programação foi recuperada para dar corpo a uma exposição itinerante que irá percorrer as nove freguesias do concelho durante o corrente ano. Este núcleo aborda os oito temas que fizeram parte da estrutura temática inicial do museu: memória documental; devoção; vida doméstica; apuros de mesa; atividades económicas; fiação e tecelagem; tempos e trajar de nordestenses; higiene pessoal e noite.

A Câmara Municipal de Nordeste e a Assembleia Municipal de Nordeste, em 2019, ano da comemoração dos 30 anos do museu, deliberaram no sentido de homenagear o seu fundador atribuindo-lhe o nome “Museu Municipal Nestor de Sousa“.

 

Nestor de Sousa

Nasceu na freguesia de São Sebastião, no concelho de Ponta Delgada, a 11 de outubro de 1932. É filho de João Cabral de Sousa e de Maria Idalina Carreiro de Sousa, ambos naturais da freguesia da Lomba da Fazenda, do concelho de Nordeste. Estudou no Liceu Nacional de Ponta Delgada, onde concluiu o 7º ano, a 21 de julho de 1954 (com 21 anos), com a classificação de 14 valores, que lhe deu acesso à licenciatura de direito.

Segundo uma nota manuscrita por si, cumpriu o serviço militar obrigatório durante 6 anos e 190 dias. Neste período inclui-se, entre outros, o curso de Oficiais Milicianos em 1955 e o serviço de expedicionário na Índia entre 1956 e 1959.

Frequentou a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra entre 1960 e 1966, onde concluiu a licenciatura em História, a 23/06/1966, com a classificação final de suficiente, com treze valores.

Desde muito cedo mostrou gosto e apetência para as artes, com especial dedicação ao teatro, área na qual se destacou durante a formatura em Coimbra. Enquanto estudante universitário brilhou em diversas peças. Foi membro do Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC), do qual foi eleito como Presidente da Direção Administrativa em 1964/65. Foi membro efetivo do Centro de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra e do Coral dos Estudantes de Letras da Universidade de Coimbra.

Entre 1966 e 1972 lecionou como professor eventual de História no Liceu Nacional de Santarém, durante quatro anos e 213 dias. Orientou os cursos de iniciação teatral nos Liceus de Santarém e Tomar (1967-1974) e foi o fundador e orientador do Centro Cultural do Liceu de Tomar (de 1971/72 a 1973/74). Lecionou como professor eventual no Liceu de Tomar por um ano e 341 dias, nos anos letivos de 1972/73 e 1973/74.

Na década de 1970 regressou a Ponta Delgada, para morar em casa dos seus pais, onde se sentia “como amparo”. Realizou o estágio pedagógico do 4º Grupo-A (História) no Liceu Nacional de Ponta Delgada (1974/75). Em 1976 iniciou funções de docente na Universidade dos Açores.

Paralelamente desenvolveu uma intensa atividade de investigador, que resultou na publicação de mais de 60 textos (entre 1976 e 2006), e de onde sobressai a tese de mestrado com o tema “A Arquitectura Religiosa de Ponta Delgada nos Séculos XVI a XVIII“, que lhe valeu o grau de Mestre em História da Arte, em 1984, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. A tese é uma obra de referência para a disciplina e foi publicada em livro em 1986.

Publicou também estudos sobre artistas regionais como Domingos Rebelo, Canto da Maia e Urbano. Elaborou pareceres relativos a intervenções em edifícios históricos e sobre a preservação do património arquitetónico e cultural dos Açores.

Dotado de um profundo sentido crítico e perfecionista, homem de grandes exigências e sagaz sentido de humor, Nestor de Sousa foi um grande pensador e crítico da sociedade, da arte e da cultura açoriana.

Foi diretor do Museu Carlos Machado durante 10 anos (entre 1975 e 1985), com o objetivo de promover a sua reestruturação enquanto “Museu de Região” e de reorganizar e desenvolver os diferentes setores da exposição permanente. Desenvolveu também uma intensa atividade expositiva e diversas iniciativas culturais, tais como conferências, serões de poesia, projeção de filmes, música coral, recital de piano, etc.

Em 1987 foi convidado pela Câmara Municipal de Nordeste para integrar a Comissão Instaladora do Museu Etnográfico do Concelho de Nordeste, sobre o qual desenvolveu larga investigação. Estabeleceu os princípios programáticos e de atuação para a criação do museu; promoveu e orientou o levantamento e inventariação do material; coordenou os trabalhos de organização e montagem do espaço expositivo; deu formação aos trabalhadores do museu e, a 28/01/1989 esteve presente na inauguração daquele que ficou conhecido como Museu do Nordeste.

Nos anos 90 regressou ao teatro com uma representação notável no Teatro Micaelense na peça “O Avarento” de Molière, pela Trupe da Universidade dos Açores (TRUNAC).

Aposentou-se da Universidade dos Açores em 2002 e faleceu em Ponta Delgada, a 23/06/2017.