Museu do Nordeste – Exposição Permanente

Carta Régia de D. Manuel I

Carta Régia - D. Manuel I

A Vila de Nordeste é uma das localidades mais antigas dos Açores, com origem nos tempos do povoamento, possivelmente na segunda metade do século XV. A Carta Régia de D. Manuel I, que eleva o lugar do Nordeste ao estatuto de “villa”, datada de 18/07/1514 e escrita por Gaspar Dias, veio destacar este pequeno território no contexto português, com a criação do concelho e com a consequente atribuição de autonomia em relação à jurisdição de Vila Franca do Campo.

O novo concelho recebeu o nome pelo qual esta zona da ilha era conhecida: Nordeste, alusivo ao ponto cardeal onde se situa, com sede na Vila de Nordeste (outrora Lomba de Salvador Afonso) e termo em Nordestinho. Abrangia o território que se estendia desde o Lombo Gordo até à Ribeira Despe-te Que Suas, contando então com 60 moradores.

“Nordeste, Viagem no Tempo”

Viagem no Tempo

Em 2017 foram introduzidas no Museu do Nordeste um conjunto de 10 fotografias da Vila de Nordeste que fazem parte da coleção “Nordeste, Viagem no Tempo” inicialmente exposta em 2008.

O trabalho de pesquisa foi realizado pelo fotógrafo Pedro Correia (estúdio PC Photo) que conseguiu recolher cerca de 150 fotografias antigas do Nordeste, abrangendo diversos temas e espaços públicos. Para este trabalho, ele procurou ilustrar como essas zonas se encontravam no ano de 2007, fazendo a comparação direta com as fotografias antigas.

Assim, cada painel apresenta duas imagens: em cima uma fotografia antiga a preto-e-branco; em baixo uma fotografia tirada em 2007, exatamente no mesmo local da imagem superior, permitindo verificar a evolução de diversos espaços públicos da sede de concelho.

A Taberna

A Taberna

Neste pequeno compartimento existente por baixo da escada de acesso ao piso superior retrata-se o lugar da “taberna”, espaço com uma grande relevância social no Nordeste de antigamente.
Durante o dia a taberna funcionava como mercearia, retratada pela balança de pesos que aqui se encontra.

Ao final do dia de trabalho era o local de reunião dos homens que por ali passavam para beber um copo de vinho e falar sobre a vida.

Deste compartimento chamamos a atenção para as grandes pedras usadas na construção da escada desta antiga casa de habitação, edificada em 1905.

Cozinha tradicional e vida doméstica

Cozinha tradicional e vida doméstica

No Nordeste, tradicionalmente, as casas eram pequenas e a cozinha era o local mais importante da habitação, onde se preparavam as refeições e onde toda a família se reunia em torno da mesa.

As casas tradicionais, a mobília e os utensílios domésticos, tanto quanto possível, eram feitos com os materiais disponíveis na ilha (madeira, barro, pedra, entre outros), revelando a capacidade criativa e a resiliência dos açorianos para construir povoados e desenvolver sociedades em locais outrora desabitados.

As cozinhas, normalmente pequenas, escuras e com o chão em terra-batida, eram organizadas em torno do forno de lenha e do “lar”, onde os alimentos eram preparados. Para além dos utensílios de cozinha encontram-se também expostas peças associadas à produção manual de farinha e à matança do porco.

Olaria

OlariaA produção cerâmica nos Açores é quase tão antiga como a ocupação humana nas ilhas e resulta do processo de adaptação das técnicas tradicionais trazidas do continente aos materiais existentes nas ilhas, adaptando-se progressivamente às necessidades quotidianas das famílias açorianas.

A cerâmica era usada para a produção de telhas, tijolos, tampas de panelas e sertãs (fábrica do Bandejo na Ribeira Seca), e também dos utensílios diários de loiça vermelha fosca de Vila Franca do Campo e ainda da típica faiança da Lagoa, localmente conhecida como “Louça de Figueira” e cuja produção se iniciou em 1862.

O barro de melhor qualidade era importado de Santa Maria e transportado em forma de “bolas” para as outras ilhas.

Apuros de mesa

Apuros de mesa

As famílias mais abastadas do Nordeste, para além das peças de cerâmica tradicional de barro vermelho para utilização na cozinha, possuíam também conjuntos de porcelana que apenas eram usados pelos donos da casa e/ou em dias de festa.

Estes objetos que estão expostos eram usados em casas mais abastadas, pertencentes a famílias da Lomba da Fazenda (João Cabral de Sousa e esposa Maria Idalina Carreiro Mendonça de Sousa; José Carreiro Mendonça e esposa Maria do Carmo Carreiro de Mendonça).

Aqui encontram-se exemplares de faiança holandesa, porcelana da Vista Alegre (do princípio do século XX), faiança da Real Fábrica de Sacavém, bem como peças em cristal e prata. Encontra-se também faiança de imitação oriental de fabrico inglês.

Religião

Religião

A fé e a religião tiveram (e têm) um papel muito importante na sociedade Nordestense.

O processo de povoamento dos Açores foi muito difícil e fez desenvolver nos habitantes locais um sentido de religiosidade fervoroso e inabalável.

A fé trouxe conforto às populações que viviam apavoradas com as catástrofes naturais e tornou-se numa forma de enfrentar o medo do desconhecido. Daí surgiram lendas, romarias e cultos que marcaram de forma inequívoca a cultura e as tradições do povo Nordestense.

Esta pequena imagem da Pietá (“Piedade” em italiano), em gesso policromado, foi oferecida por José da Luz Soares Fernandes, da Vila de Nordeste. Representa o momento relatado na Bíblia em que Maria segura Jesus nos seus braços, logo depois de ter sido tirado da cruz.

Romarias quaresmais

Romarias quaresmais

As romarias quaresmais que se realizam anualmente na ilha de São Miguel são uma tradição com quase 500 anos de história, associadas ao terramoto de 1522 que destruiu Vila Franca do Campo e que causou grande pavor às populações locais.

O cataclismo que destruiu a capital da ilha foi visto como (mais) um “castigo divino”, no seguimento do qual os homens micaelenses (Romeiros de São Miguel) se organizaram e prometeram cumprir anualmente – durante 8 dias da Quaresma – a penitência de percorrer todos os templos da ilha onde fosse venerada Nossa Senhora ou onde estivesse o Santíssimo Sacramento, cantando e rezando em homenagem a Nossa Senhora do Rosário, pedindo-lhe para interceder junto de Deus em proteção do povo. Aqui, este movimento de fé encontra-se representado pelo Rosário/Terço usado pelo Romeiro nas suas orações.

Vida rural

Vida rural

A atividade agrícola foi um dos principais meios de sustento da sociedade Nordestense que, por viver duplamente isolada num território longínquo e pouco desenvolvido, só podia sobreviver com aquilo que a terra produzia.

Os instrumentos utilizados para trabalhar a terra eram feitos manualmente, tal como é o caso do sacho (espécie de enxada usada para cavar a terra), do tridente (usado para levantar o trigo), do podão (que, tal como o nome indica, servia para podar as árvores) e da foice (que era utilizada para cortar as silvas ou para ceifar o trigo).

As madeiras usadas como cabo das ferramentas agrícolas eram o álamo, o vinhático e o cedro, pois eram madeiras leves e macias, agradáveis ao tato.

Oficina do sapateiro

Oficina do sapateiro

A oficina do sapateiro era constituída por uma bancada de trabalho onde estavam dispostas as ferramentas, por uma máquina de coser acionada por pedal, e por diversos moldes de sapatos dos mais variados tamanhos. A família do mestre José do Rego, da Lomba da Fazenda, cedeu ao Museu do Nordeste toda esta coleção.

Antigamente a maioria da população só usava sapatos ou botas em ocasiões especiais como para ir à missa, pois os sapatos eram vistos como um acessório de luxo que tinha de ser poupado.

Eram feitos à medida de cada freguês e duravam “quase uma vida” pois eram habilmente reparados pelo sapateiro que os cosia e remendava quando era preciso. Apenas as famílias mais abastadas mandavam fazer sapatos para as crianças, pois o rápido crescimento dos pés fazia com que fosse muito dispendioso comprar-lhes sapatos.

Ensino primário

Ensino primário

Existem no concelho de Nordeste 12 edifícios escolares construídos ao abrigo do “Plano dos Centenários”, entre 1950 e 1968, promovido pelo regime do Estado Novo, dos quais apenas cinco se encontram ainda em funcionamento como escolas do ensino básico.

Este plano destinava-se a promover a alfabetização da população nacional que, à época, apresentava níveis de analfabetismo preocupantes.

O material escolar era igual em todo o país e passava dos irmãos mais velhos para os mais novos e de geração em geração. As pequenas ardósias permitiam aos alunos praticar a matemática e os cadernos eram preenchidos com bonitas caligrafias escritas com lápis de carvão ou caneta de aparo.

Fiação e tecelagem

Fiação e tecelagem

Documenta-se que os trabalhos em linho e em lã foram implementados na ilha de São Miguel há mais de 500 anos, desde que os povoadores se fixaram na ilha, tornando-se no recurso destas populações rurais para as necessidades do seu pequeno e fechado mundo quotidiano, para confeção dos seus próprios produtos.

A arte de fiar e de tecer, seja com lã, com linho ou com algodão, exige muita perícia e paciência. Trabalhar num tear é uma arte demorada e rigorosa, independentemente da matéria-prima utilizada. Os trabalhos realizados no tear revelam grande perfeição e demonstram que as tecedeiras têm capacidade para fazer autênticas obras de arte, como é o caso das colchas, mantas, passadeiras de retalhos, trajes regionais, cobertores, tiras ou napperons com desenhos geométricos que tradicionalmente se faziam por cá.