
A Câmara do Nordeste promoveu o lançamento do livro “1949, Acidente Aéreo na Algarvia”, no dia em que se assinalaram os 75 anos da queda do avião Constellation F-BAZN da Air France no pico Redondo, no então lugar da Algarvia.
Tendo presidido a sessão de lançamento da obra, António Miguel Soares mostrou a disponibilidade do município do Nordeste para acolher projetos literários como este, e outros de teor cultural que contribuam para o conhecimento histórico do concelho, após apreciação e amadurecimento dos mesmos por parte da autarquia.
A publicação lançada, no domingo, 27 de outubro, da autoria de Adélio Amaro, nascido no continente português, residente em Leiria, mas descendente de pai nordestense, natural da Algarvia, surge após outras publicações lançadas pelo autor sobre a freguesia da Algarvia.
Esta obra em específico, lançada nos 75 anos da queda do avião no pico Redondo, pretende ser uma homenagem às 48 vítimas que perderam a vida no acidente, mas também aos nordestenses, e em especial às pessoas da Algarvia e das freguesias vizinhas, que desbravaram atalhos na busca dos destroços e da dignidade a dar às vítimas de tão trágico acidente.
Do acidente da madrugada de 27 de outubro (a queda do avião ficou para a posteridade como tendo ocorrido a 27 de outubro, mas registos mais específicos apontam a sua queda às 00:51 da madrugada de 28 de outubro) existe apenas um cruzeiro, colocado na zona do Bardinho, a caminho do pico da Vara, dando conta do acidente e da morte de todos os tripulantes.
Para ampliar o conhecimento deste incidente com grande impacto no concelho do Nordeste, a Câmara do Nordeste com a Junta de Freguesia da Algarvia ergueu na comemoração dos 75 anos da queda do avião, também a 27 de outubro, uma placa na envolvente à Igreja de NS do Amparo, com o nome de todos os tripulantes do avião e uma homenagem a todos aqueles que tudo fizeram para recolher os destroços do avião e os restos mortais das 48 vítimas.
Da recolha da fatídica madrugada de 28 de outubro de 1949, o autor abordou, no lançamento da obra, algumas situações que tiveram mais impacto na imprensa portuguesa e estrangeira, em especial em França, dado que entre os tripulantes do avião seguiam figuras mediáticas, sobretudo o pugilista Marcel Cerdan. Ao longo do livro são fornecidos vários “links” para vídeos, reportagens e outros conteúdos, que podem ser visualizados e que o autor considerou ser importante para que o incidente não se fique pela lenda ou por um apontamento histórico menor.
O avião da companhia francesa Air France seguia de Paris para Nova Iorque, e faria uma escala na ilha de Santa Maria que não veio a acontecer face ao embate no pico Redondo sem que se tivesse chegado às razões que teriam efetivamente provocado o incidente.
Em 1949 era pároco na freguesia o padre Domingos e médico o Dr. Dionísio (como eram localmente conhecidos) tendo ambos tido um papel importante no reconhecimento e autopsia e trasladação dos corpos.
Na altura, a imprensa francesa lança uma má reputação sobre os locais descrevendo-os como os “Piratas de pés descalços” por associação a pertences de valor que eventualmente teriam sido saqueados aquando da recolha dos destroços e dos restos mortais, facto que o governo português não aceitou e que contrariou veemente na ocasião, como dão conta os jornais regionais à data do incidente.
No livro “1949, Acidente Aéreo na Algarvia”, Adélio Amaro procura contrariar esta ideia de possível usurpação, que terá perdurado no tempo, incluindo no concelho do Nordeste, não descurando a possibilidade de alguns pertences terem sido usurpados, uma vez que seguiam a bordo tripulantes com algum poder económico, e fazendo referência aos famosos relógios de pulso tão falados à boca pequena, mas não tendo sucedido com a maioria dos populares que acorreram ao local, apresentando algumas justificações como o desconhecimento do valor de alguns bens por parte de pessoas à época tão pobres.
Sobre o tão falado violino, de Ginette Neveu, outra figura pública que seguia no avião, relatos do padre Domingos, pároco do lugar, desmentem o fim que terá sido dado ao instrumento (que se diz ter sido pilhado por gentes da ilha) ao relatar que o violino se encontrava destruído quando foi recolhido entre os destroços.
Outra critica que surge de França na altura recai sobre o trabalho efetuado no terreno, sobretudo no reconhecimento dos corpos pelo médico do lugar, e que é justificado pelo autor do livro pelas condições muito limitadas de há 75 anos e pelo estado de mutilação em que ficaram os corpos.
A Igreja de NS do Amparo foi escassa para acolher as 48 urnas, tendo parte delas sido acolhidas numa moradia existente atrás da igreja e que ainda hoje existe. Do lugar da Algarvia as urnas seguiram para o campo de Santana e daí para Santa Maria com destino ao país de origem.
Após este breve resumo sobre alguns dos capítulos do livro, o autor encerrou a apresentação referindo ser sua intenção que a publicação dê a conhecer a freguesia da Algarvia, e que o trágico acidente de 1949 naquele lugar possa ser amplamente conhecido com proveito para a freguesia, hipoteticamente através da criação de um centro interpretativo do incidente que vitimou figuras mundialmente conhecidas como Marcel Cerdan, campeão do mundo de boxe, Ginette Neveu, violinista francesa, Bernard Boutet de Monvel, pintor francês, e o norte americano Kay Kamen, auxiliar da Walt Disney.
O livro teve a apresentação de José Andrade, também ele descendente de nordestenses, ex-jornalista, escritor e atual diretor regional das Comunidades.