Nordeste, redescubra-o
Texto traduzido a partir de versão em inglês
António H. Azevedo
London-Ontario-Canada/Abril 2015
Já não é o que era…Tanto no tempo em que o visitava mais amiúde, aquando da minha vivência nas ilhas. Claro que estou a referir-me ao concelho do nordeste, da ilha açoriana de São Miguel.
Foi durante anos a minha “colónia” de férias e da minha esposa Josefina, uma nordestense de raiz, nascida e criada num “lugarinho” pitoresco, chamado de Assomada, situado entre as freguesias de São Pedro Nordestinho e Lomba da Fazenda.
Foi a partir do final da década dos anos 70 que comecei a enamorar do Nordeste, tal como já me tinha apaixonado, antes, por uma habitante, a minha esposa, Josefina.
Sou “filho” do Nordeste por adoção, mas apaixonei-me por ele como me apaixonei pela minha mulher. Um amor que cada vez é mais profundo.
Depois de um ano de trabalho na ilha vizinha, Terceira, onde tínhamos a “nossa” vida profissional e vivíamos, as férias eram passadas em São Miguel, mais precisamente no Nordeste, onde viviam os meus sogros, Daniel e Beatriz.
Durante as férias, por vezes, embrenhava-me pelas pastagens verdejantes, onde o gado bovino pastava, pintalgando as mesmas com cores da sua pelagem. Ora sobressaindo o preto ou o branco e preto, contrastando, por vezes, com algumas de pelagem vermelha.
De vez em quando, um lavrador ao cruzar-se comigo, tanto a pé como montado na sua besta cavalar, dirigia-me um “Olá” de saudação, ao qual correspondia da mesma forma. Gente rural, mas simpática e afável. Foi aí que, também, comecei a gostar dos afazeres da vida rural, onde algumas vezes ajudava, dentro dos meus conhecimentos e boa vontade, o meu sogro Daniel Paiva, nas lides da lavoura, levando as vacas até ao tanque para beberem água e até mudá-las, dando-lhes mais “um corte” de erva.
Se fosse preciso, também, ia quebrar uns troços de milho, que emalhava e depois ajudava o meu sogro a por em cima da égua que os levaria até ao pasto onde estavam as vacas. Também ajudava a apanhar o feijão entre o milho, tirar batatas da terra, roçar as pastagens, malhar o feijão e o tremoço, tirar inhame, etc.
Bem lá no cimo de uma pastagem, contemplava a linha do horizonte, dum Atlântico imenso, que mal sabia eu que um dia me havia de separar, não só do Nordeste mas também da minha ilha, o meu berço de nascença, a ilha Terceira.
Durante anos o Nordeste era considerado como a décima ilha, devido ao seu afastamento da cidade de Ponta Delgada e quase isolamento, provocado pelo regime político de então.
O acesso ao Nordeste era feito através de estradas sinuosas, algumas das quais com alguns trechos de piso de terra batida, onde os autocarros de passageiros levavam cerca de três horas, e por vezes mais, a lá chegar.
Atualmente, o Nordeste já não é um lugar que não se possa ou não se queira visitar, devido à demora e estradas com curvas sinuosas. A nova via rápida, construída recentemente, liga o concelho do Nordeste a Ponta Delgada em pouco mais de 40 minutos. Graças à via rápida já são muitos os que se deslocam ao concelho mais a norte da ilha micaelense para desfrutarem das suas paisagens e belezas naturais, e do seu verde, que aliás, envolve toda a ilha, não fosse São Miguel considerado a ilha verde dos Açores.
O Nordeste de hoje nada tem a ver com a década de 70 e anteriores. Está dotado de infraestruturas que servem não só para as suas gentes, como para quem o visita. É claro que cada freguesia, começando na Salga, a primeira do concelho, e acabando na Pedreira, todas elas tem a sua peculiaridade, como as festas e romarias, que as diferenciam umas das outras.
O Nordeste tem no seu “seio” muito para oferecer aos seus visitantes, bem como aos seus habitantes. Saibam eles aproveitar e desfrutar o que possuem.
As belezas naturais são várias, tais como o Salto da Farinha, na freguesia da Salga, o Salto de Cavalo, também ele situado na freguesia da Salga, onde a paisagem é deslumbrante, podendo-se avistar ao longe as fumarolas das caldeiras das Furnas. Na boca da Ribeira, em tardes quentes de verão, pode tomar-se um banho de mar nas piscinas, para refrescar.
A Ponta da Madrugada e a Ponta do Sossego, dois lugares ímpares, onde se pode passar um dia agradável com a família ou amigos, fazendo um picnic ou um churrasco, desfrutando ao mesmo tempo da paisagem verdejante circundante, ou perscrutando o mar na sua frente, onde por vezes, se pode avistar um navio navegando calmamente, como se de uma baleia se tratasse, como muitas das que sulcavam o mar dos Açores. Ao fundo avista-se, de um destes miradouros, a praia do Lombo Gordo, onde o mar em dias de verão vem “beijar”, docemente, a areia negra, da qual a praia é composta.
O Pico da Vara, o segundo ponto mais alto do arquipélago, é o lugar a não deixar de visitar. Num dia solarengo e claro, lá do cimo, pode-se avistar quase toda a ilha e até ficar-se mais perto do Céu. O Priolo, ave rara no Mundo, e em vias de extinção é habitante da zona dos Graminhais, onde tem o seu habitat.
As igrejas espalhadas pelas freguesias, são monumentos que também se devem visitar. Durante os meses de verão são muitas as festas e romarias que se realizam um pouco por todo o concelho, com realce para as festividades da Vila do Nordeste que são um ponto de referência nas festividades da ilha. O seu cartaz atrai todos os anos milhares de visitantes.
Visitar um miradouro, deixar-se extasiar pelo verde ao seu redor, assim como respirar o cheiro das Azáleas, Criptomérias ou Eucaliptos resulta como um bálsamo para a alma e para o espírito.
Ainda me falta descobrir, ou melhor, redescobrir muitas das belezas que ali existem. Quero subir o Pico da Vara e extasiar-me com a paisagem da ilha, descer até ao Farol e à Praia do Lombo Gordo, presenciar a beleza do Salto da Farinha, avistar este passarinho raro que é o Priolo, e sobretudo, deliciar-me com a gastronomia nordestense.
Este Nordeste que já foi o concelho mais florido da Europa, tem muito para oferecer e mostrar, não só a quem visita, como também aos seus filhos emigrados, e também aos seus habitantes, que porventura ainda não o “desbravaram”, ou o redescobriram.
Muito mais haveria a dizer sobre este Nordeste que me fascina, mas, fico-me por aqui.
Lanço-lhes um desafio…Visitem o Nordeste. Vão descobri-lo e verão que valeu a pena lá ter ido. Para terminar, e para os seus habitantes, e não só, deixo estas palavras de um ilustre nordestense, que foi o Padre Dinis da Luz, que num dos seus livros diz esta verdade: “Só quando dizemos adeus à nossa terra, principia realmente a saudade. Só quando a abandonamos, principiamos realmente a amá-la. E só então sentimos o que perdemos… a presença nos olhos e na alma, de uma vida afetuosa, sobretudo nos lugares pequenos, onde até pedras do caminho tem uma história e um nome”.